Trecho extraido do livro do 25º aniversário da fundação da SPRJ
HISTÓRIA DO MOVIMENTO PSICANALÍTICO
Juliano Moreira, professor catedrático de Psiquiatria da Faculdade de Medicina, foi a primeira pessoa de renome que, em 24 de setembro de 1914. pronunciou conferência. em sessão da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal. sobre "A Psicanálise de Freud".Três meses mais tarde. o Dr. Genserico Aragão Souza Pinto defendeu tese de doutorado. na mesma cadeira do Prof. Juliano Moreira. com o tema "Psicanálise e a Sexualidade nas Neuroses’.
Em 1919, o jurisconsulto e escritor A. Medeiros e Albuquerque pronunciou conferência, na Policlínica Geral do Rio de Janeiro. versando sobre "A Psicologia de um Neurologista: Freud e as suas teorias sexuais’. Neste mesmo ano foi publicado, nos “Arquivos Brasileiros de Neuriatria(?) e Psiquiatria”, um trabalho. de orientação psicanalítica. do Prof. Henrique Roxo. "Sexualidade e Demencia Precoce". Teorias e técnicas em trabalhos de clínica, etnologia e outras ciências afins vinham. concomitantemente, sendo experimentados por outro médicos Dentre os representantes deste grupo citam-se Júlio Pires Carreiro, autor do 1 Sexo e Cultura: o Prof. Artur Ramos. Psiquiatra, etnólogo e renomado antropólogo, autor de Freud, Adir(?), Jung e Psiquiatria e Psicanálise (1935) e os médicos Gastão Pereira da Silva. Fábio Sodré, Januário Bittencourt, Arruda Camara, Iracy Doyle, Júlio Paternostro, Olavo Rocha e Prof. Austregésilo.
Todos estes estudos e experimentos tinham lugar em Porto A1egre, Bahia, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e, sobretudo, em São Paulo chegou a São Paulo a Dra. Adelheid Koch, psicanalista alemã, que, com o professor Durval Marcondes, começou a preparar um grupo que conseguiria, mais tarde, reconhecimento da Associação Psicanalítica Internacional.
No Rio de Janeiro, a psicanálise também começava a tomar rumos mais definidos. Incentivados e ajudados pelo Prof. Adauto Botelho, diretor do Serviço Nacional de Doenças Mentais, quatro psiquiatras desta instituição viajam, em 1946/47, a Buenos Aires, cm vistas a sua análise de formação: os Drs. Walderedo Ismael de Oliveira, Alcion Baer Bahia e o casal Marialzira e Danilo Perestrello.
Outro fato demonstrativo do interesse despertado pela Psicanálise sobre a intelectualidade brasileira, se fez notar na tradução dos textos originais de Freud do alemão para o português, por psiquiatras renomados como: Cincinato Magalhães, Elias Davidovich, Gladestone Parente e Odilon Galotti.
HISTÓRIA DA SPRJ
Em 1947, um grupo funda no Rio e Janeiro, o Instituto Brasileiro de Psicanálise. Os Drs. Arruda Câmara e Silvio Grieco viajam então para Londres, sede da presidência da Associação Psicanalítica Internacional, e consegue que o analista inglês Dr. Marc Burke venha ao Rio, iniciando a análise de formação de um grupo de dez colegas.
Em fins de 1948, um outro analista didata, o dr Walter Werner Kemper, também indicado pelo Dr Ernest Jones, presidente da Associação Psicanalítica Internacional, veio para o Rio de janeiro. Em 1949, dividiu com o dr. Burke os encargos da formação do grupo
Mais tarde, no mesmo ano, quatro pessoas conversavam na Esplanada do Castelo, em torno de uma mesa de chá, na calçada de uma confeitaria, sobre os novos núcleos psicanalíticos em via deformação. Eram: Dr. Walter Werner Kemper, o Prof. Mark Burke, D. Kathrin Kemper e Noemy Rudolfer, professora de psicologia da Universidade de São Paulo. As tantas D. Noemy disse que tinha medo de ser submetida a psicanálise por que temia perder sua alegria de viver. O Dr. Kemper retrucou que poderia ser que temporariamente, no começo, isso acontecesse, mas, com probabilidade ela iria readquiri-la permanentemente, se a sua alegria de viver fosse autêntica, isto é, com raízes no inconsciente.
Foi com o "Study Group" que os dois analistas procuraram fundar o Núcleo Psicanalítico do Rio de Janeiro, sob responsabilidade e o patrocínio da então Sociedade de Psicanálise de São Paulo, da qual eram diretores o Dr. Durval Marcondes e a Dra. Adlheid Koch.
Começaram então a surgir divergências entre os Drs. Burke e Kemper e seus grupos analisados. Em 1950, o Dr. Kemper com seus analisados funda o Centro de Estudos Psicanalíticos do Rio de Janeiro. Em 1953, ele é conhecido como "Study Group" pertencente a Associação Psicanalítica Internacional. Seus membros eram: Dr. Celestino Prunes, de Porto Alegre, Dr. Luiz Guimarães Dahlheim, Dr, Fabio Leite Lobo, Dr. João Marafelli Filho, Dr. Gerson Borsoi, Dr. Souza Viana, Dra. Inaura Carneiro Leão, Zenaira Aranha, psicóloga e estudante de medicina, Inês Besouchet, psicóloga e Noemy Rudolfer, professora de psicologia da Universidade de São Paulo. Mais tarde o Dr. Viana deixa o grupo e a Sra Kathrin Kemper ocupou seu lugar.
Iniciada a formação psicanalítica do grupo, com a análise didática feita pelo Dr. kemper, seus membros começaram a viajar para São Paulo a fim de frequentar as reuniões científicas da piscanálise e para iniciar a sua análise de supervisão com os analistas da Sociedade Pisicanalítica de São Paulo.
Após os seminários na casa do Dr. Kemper, haviam a "esticadas" no Bar Alpino ou no Bar do Leme, onde o grupo tomava os seus chopes e reforçava os laços de amizade que até hoje persistem.
Em 1955, o Centro de Estudos Psicanalíticos do Rio e Janeiro é aceito como Sociedade componente da Associação Internacional de Psicanálise, com o nome de Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. Isto ocorreu durante o 19º Congresso Psicanalítico Internacional, realizado em Genebra no mês de julho.
Com o reconhecimento da Sociedade, pela AIP, os membros associados do Centro de Estudos Psicanalíticos do Rio de Janeiro passaram a membros efetivos e para comemorar houve um Jantar de Confraternização na Churrascaria Gaúcha.
O Prof. Kemper era uma mente muito aberta e achava muita graça no nosso "jeitinho" brasileiro. Tinha que estudar o comportamento do brasileiro, para não considerá-lo amoral. E para tal, ele acompanhava com o maior interesse os fenômenos sociais brasileiros, tais como o carnaval e o futebol. Seu traço característico era incentivar os alunos a manter estreito intercâmbio com agremiações científicas dentro e fora do país. Onde precisassem dele, respondia ao chamado sem nunca ter negado a colaborar com a maior frequência e desinteresse possíveis. Por trás de seu jeito frio, germânico, havia um homem sensível, culto e aberto ao conhecimento e que também escrevia poesias em alemão. A sua visão era abrangente, isto é, procurava oferecer a melhor formação teórica e prática aos alunos, como também tornar a psicanálise acessível ao maior número possível de pessoas. Dai querer ele fundar a Sociedade de Psicoterapia de Grupo que funcionou, nos seus primeiros dias em conjunto com a SPRJ.
Ocorrência que não poderia deixar de ser mencionada foi a prisão do Prof. Kemper, em novembro de 1955, num gesto de inabilidade do Serviço de Fiscalização da Medicina, auxiliado pela policia regular. Dra. Maria Manhães estava terminando sua sessão já sentada no divã, quando o consultório foi invadido. Dr. Walter Antunes estava na sala de espera. E lá foram os três para o camburão para a Delegacia de Jogos e Diversões Públicas. O Prof. Kemper estava surpreendido e atônito. Dr. Fabio Leite Lobo dirigiu-se logo para a delegacia e, de cigarro entre os dedos, fazia sinais para a Dra. Manhães e Dr. Antunes para se manterem calados; o que valeu uma tirada daquelas de Seleções do Reader's Digest, pois, o delegado dizia aos Drs. que estavam mantendo um silêncio agressivo. Embora Dr Leão Cabernite e um piquete tivessem passado a noite na rua, evitando que a notícia saísse nos jornais, ao menos sem grande estardalhaço, "O Dia" foi generoso e lá veio com a manchete: "Dava conselhos escabrosos a cliente". "A Dra. Manhães diz que o professor é um gênio". A psiquiatria apoiou o Prof Kemper e repudiou o fato com inúmeras publicações e sessões de desagravo. Em 1963, o governo brasileiro se redimiu desta ocorrência conferindo a Ordem do Cruzeiro do Sul ao Prof. Kemper.
Veja abaixo os acontecimentos marcantes da nossa história na linha do tempo.
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